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quinta-feira, 24 de novembro de 2016

CONVERSA COM EVANDIR 1

21/11/16, 14h08 - EVANDIR: Disputa será da direita com a extrema direita, afirma Haddad

MÔNICA BERGAMO
COLUNISTA DA FOLHA
21/11/2016 02h00

Prefeito de São Paulo e candidato à reeleição, Fernando Haddad (PT)
O prefeito de São Paulo, Fernando Haddad (PT)
O prefeito de São Paulo, Fernando Haddad (PT-SP) afirma que a esquerda brasileira nunca conviveu com uma situação "tão adversa" como a atual. Para ele, a polarização brasileira se dará, nos próximos anos, entre a direita e a extrema direita.

Derrotado por João Doria (PSDB-SP) na eleição municipal, ele diz que se dedicará agora a "reorganizar a vida", mas sem deixar o "debate nacional". Leia os principais trechos da entrevista, concedida dias depois da vitória do republicano Donald Trump à Presidência dos EUA:

Folha - Há uma onda conservadora no mundo e no Brasil?

Fernando Haddad - Não dá para entender o Donald Trump sem entender o que foi a globalização. O que seus ideólogos defendiam? Que ela significaria a distribuição do welfare state [Estado de bem estar], que uma parte do bem estar do núcleo orgânico do sistema seria socializado.

Isso atingiria inclusive o Brasil. Essa era uma tese do [ex-presidente] Fernando Henrique Cardoso, por exemplo. Mas o que de fato aconteceu? O capital se internacionalizou de uma maneira inteiramente nova.

Eu [empresa] produzo a sola do [tênis] Nike no Vietnã, o cadarço no Camboja, monto em Manaus e exporto para a Europa. Só que quem fica com o superlucro é a marca Nike. Não são os trabalhadores, como se poderia imaginar.

A força de barganha diminui.

A base nacional da legislação e da organização sindical se esfarelam. E o capital passa a superexplorar a força de trabalho. Sobretudo no Sudeste asiático, que se industrializa com base na mão de obra barata, de pessoas que trocavam 12 horas de jornada por um prato de arroz.

A globalização significou ainda a desregulamentação dos mercados financeiros.

Em 2008, duas coisas se combinam: crise financeira com a explosão das bolhas na Europa e nos EUA.

O centro nervoso do sistema é atingido. Os trabalhadores de seu núcleo orgânico já sentiam os efeitos da desindustrialização pelo aumento da competição asiática. Mas, a partir de 2008, passaram a sentir na pele, como nunca.

Essa combinação começa a explicar a emergência da direita nos EUA e na Europa.

Trump é só um elemento a mais de reação da classe trabalhadora tradicional, europeia e americana. Que dá sustentação a Marine Le Pen, na França, ao Brexit [saída do Reino Unido da União Europeia], a grupos radicais na Alemanha e na Áustria.

Nos EUA não há desemprego, por exemplo. Ao contrário.

Mas você tem a precarização [do trabalho], sobretudo no nordeste, que era uma das regiões de base industrial nos EUA. Ele sucumbe.

E você tem a emergência de forças ultraconservadoras de viés nacionalista, com a classe trabalhadora tradicional reagindo aos efeitos deletérios da globalização pela direita. Hoje a disputa, em escala global, inclusive na periferia do sistema, se dá entre a direita e a extrema direita.

E no Brasil?

A América Latina pegou um atalho interessante. A expansão do sistema abriu um ciclo de commodities e de crescimento que se combinou com a democratização da renda por governos que, sucedendo os militares, emergiram com discurso muito favorável ao combate à desigualdade.

E o Brasil conseguiu cumprir com certos princípios da Constituição de 1988, que foi o ponto alto a Nova Republica, que durou de 1985 a 2016.

A Nova República terminou. Vivemos hoje o começo de uma segunda República Velha, como deseja o establishment. [Irônico] Essa farra aí, de direitos, acabou. Vamos voltar ao padrão primário exportador do começo do século passado.

Como o país chega a essa crise tão aguda?

Com a crise de 2008, o ciclo de commodities teve que acabar. As economias centrais dependiam de matéria prima barata para recuperar seu dinamismo. A decisão da Arábia Saudita [de aumentar a produção de petróleo, fazendo o preço despencar] é política. Ela joga com os EUA.

Com o fim do ciclo das commodities, começa a crise na periferia, em governos [da América Latina] de matriz econômica cujas bases não são mais sustentáveis. Isso explica parte da crise do governo Dilma [Rousseff]. Obviamente não explica tudo.

E o que mais explica?

A leitura completamente equivocada do governo e do PT sobre [os protestos] de 2013. Ela foi a de que tínhamos garantido o pão e que o povo tinha saído às ruas para pedir a manteiga. Essa expressão eu ouvi, na época, de alguém muito importante.

Do Lula?

[risos]. É. Eu ouvi do Lula. E eu disse para ele "não é isso o que está acontecendo".

Nós tínhamos dez anos de crescimento real do salário, a menor taxa de desemprego, inflação relativamente controlada. Não tinha elementos para o povo estar na rua.

A não ser pelo componente psicológico de perda de poder e status relativos das classes médias tradicionais, espremidas entre ricos cada vez mais ricos e pobres menos pobres.

Elas que lideraram aquele processo. E já começava o fim do ciclo de commodities. O resultado foi uma crise institucional com a radicalidade que a crise política impôs.

A leitura errada se traduziu em medidas equivocadas?

Dilma acreditava realmente que essa crise era temporária. E os ajustes que a economia precisava foram sendo adiados. Quando se confirma o diagnóstico contrário, ela dá um cavalo de pau. Imaginando que em 2018 a economia voltaria a crescer.

E dá tudo errado.

Dar um cavalo de pau pressupõe que você tem base parlamentar. Ela não tinha. A popular, perdeu. A classe média tradicional ganhou as ruas e aí nós promovemos algo que não está na Constituição: o tal do impeachment sem crime de responsabilidade.

O que foi esse casuísmo? A Constituição prevê a intervenção do Estado no município, do governo federal no Estado, mas não a do Congresso no executivo. Pois foi exatamente o que aconteceu.

E o que nós temos hoje é um governo de intervenção, com os seus atos institucionais. A PEC 241/55 [do teto de gastos] é o ato institucional número 1 do novo regime.

O pressuposto é o seguinte: qualquer aumento quantitativo dos serviços públicos, qualquer melhora qualitativa, e o enfrentamento da questão demográfica, do envelhecimento da população, vão ter que ser enfrentados com o aumento de produtividade do serviço público.

A conta não vai fechar.

O Estado vai sofrer pressão para racionalizar gastos. Isso não é positivo e necessário?

O problema é de escala. É imaginar que esses três desafios vão caber dentro da âncora fiscal. É imaginar que o interesse difuso vai prevalecer sobre o interesse corporativo. Olha a dificuldade de se cortar supersalários no Judiciário brasileiro, que é o mais caro do mundo. Olha a dificuldade que é você enfrentar as corporações.

O senhor costuma criticá-las.

Eu não me vejo vivendo numa República. As instituições republicanas funcionam ainda muito na base da facção. Pessoas que não poderiam têm lado. Alguns promotores, alguns jornalistas, juízes, desembargadores.

O problema não está no fato de um membro do Ministério Público, por exemplo, não agir republicanamente. E sim no fato de os mecanismos corretores não funcionarem.

Que motivos levaram à sua derrota em São Paulo?

A crise do PT foi muito severa. Só neste ano, três [ex] ministros do partido foram presos [Antonio Palocci, Paulo Bernardo e Guido Mantega]. Teve o impeachment. O Instituto Lula somou 13 horas de Jornal Nacional, neste ano, contra o Lula.

Houve também a fragmentação do nosso campo. Chegaram a me perguntar por que o PT tinha lançado três candidatos, eu, a Marta [Suplicy] e a [Luiza] Erundina.

E o Doria fez propostas objetivas que sensibilizaram o eleitorado: manter a tarifa [de ônibus] congelada, abrandar a fiscalização por radar e aumentar a velocidade das marginais. Eram as críticas que eu ouvia na periferia.

Mas, sinceramente, eu não reclamo de nada porque a experiência que vivi foi a mais rica que eu poderia ter.

Eu queria ficar mais quatro anos como prefeito. Queria. Do MEC [que comandou no governo Lula] eu sinto nostalgia. Daqui eu vou sentir saudades. Porque eu gosto de ser prefeito e queria ficar.

Por outro lado, vivendo essa turbulência toda e entregando a cidade melhor do que recebi compensa o sentimento de perda. A dívida de SP era 200% da receita. Hoje é 74%. A folha de pagamento está controlada, 70% do orçamento é de receitas próprias.

Quanto tempo a esquerda demora para voltar ao poder no Brasil, se é que volta?

A tendência é que também aqui direita e extrema direita sejam o polo das próximas disputas. O desafio da esquerda é maior do que nunca. A gente nunca conviveu com uma situação tão adversa.

Qual é o futuro do PT?

A chance de o PT manter a hegemonia na esquerda é difícil. Embora, mesmo muito machucado, ele ainda seja maior do que quase a soma de todos os outros [partidos de esquerda] reunidos. Vamos ver o que ocorre até 2018, em torno da candidatura do Ciro Gomes (PDT-CE), se o Lula vai ser impedido de disputar.

E o senhor? Pode disputar [a Presidência] em 2018?

Eu não estou pensando em eleição agora.

Poderia tentar de novo a Prefeitura? Ou sair a deputado, a senador?


É difícil passar pelo mesmo lugar que eu já passei. E não me vejo no Legislativo. Vamos ver o que o destino me reserva. Agora estou empenhado em organizar a minha vida pessoal. Depois de 16 anos em vários governos, me descapitalizei completamente. Mas a vida inteira eu participei de política e só a partir de 2001 em cargos públicos. Vou continuar a participar do debate nacional, vou voltar, por exemplo, a escrever.

quarta-feira, 27 de abril de 2016

Querem que nosso continente volte a ser quintal dos EUA, afirma Frei Betto

Para escritor, há uma forte influência estadunidense na ascensão conservadora da América Latina

Para Frei Betto, governos progressistas da região erraram em não politizar o povo / José Cruz/Agência Brasil

“Os ianques farão de tudo para que o nosso continente volte a ser o quintal deles”. Para Frei Betto, uma das principais referências da história dos movimentos populares no Brasil, a ascensão conservadora no Brasil e em outros países da América Latina tem influência direta dos Estados Unidos. Ele acredita, porém, que os “governos progressistas” que chegaram ao poder no continente na última década precisam reconhecer seus erros, como o de “não cuidar da alfabetização política do povo”.
Ao longo dos seus 71 anos, o frade dominicano Carlos Alberto Libâno Christo participou da Ação Católica e enfrentou a repressão ao lado de Frei Tito e Carlos Marighella, líderes de esquerda mortos pela ditadura militar. Por conta de seu engajamento, Frei Betto foi preso duas vezes entre as décadas de 1960 e 1970.
Com a ascensão de Lula à presidência, ele coordenou o programa Fome Zero, posteriormente substituído pelo Bolsa Família. Entretanto, após dois anos, saiu do governo por críticas às mudanças ideológicas do Partido dos Trabalhadores (PT).
Ele, que é autor de mais de 60 livros, relaciona a tentativa de retirada da presidenta Dilma Rousseff aos processos que levaram à deposição dos presidentes Fernando Lugo (Paraguai) e Manuel Zelaya (Honduras). “Considero o impeachment um golpe branco”, declara, taxativamente.

Confira a entrevista completa:
Brasil de Fato: O Brasil está dividido. Qual a sua opinião em relação aoimpeachment?
Frei Betto: Considero o impeachment um golpe branco, à semelhança do que ocorreu em Honduras [em 2009] e no Paraguai [2012]. Entre as vozes das ruas e as das urnas, fico com a última. Se houver impeachment, o Brasil entrará em turbulência política permanente, pois qualquer oposição tenderá a recorrer a este recurso.

Quais as consequências de uma eventual derrubada da presidenta?
Os governos Lula e o primeiro de Dilma foram os melhores de nossa história republicana, mas cometeram erros graves: nenhuma reforma estrutural, falta de valorização dos movimentos sociais (sempre chamados na hora de apagar incêndios), estímulo ao consumismo, despolitização da nação, entre outros. Apesar disso, os mais pobres tiveram conquistas importantes: 45 milhões saíram da miséria, não houve criminalização dos movimentos sociais e a política externa foi independente. Se Dilma cair, o Brasil passará do Estado de Direito ao Estado da direita.

Independentemente do processo de impeachment, qual o futuro do PT? Existe possibilidade de uma guinada à esquerda?
Não creio na recuperação do PT, infelizmente. Ele jogou na lata de lixo da história os três capitais simbólicos que o caracterizavam na origem: ser o partido da ética; ser o partido da organização da classe trabalhadora; ser o partido do horizonte socialista para o Brasil, o que traria mudanças estruturais. O envolvimento de alguns de seus dirigentes na corrupção ficará como uma ferida incicatrizável. O PT tem que se reinventar de outro modo. Mas antes deveria fazer uma séria autocrítica.

O senhor viveu a violência da ditadura. Como enxerga o atual momento, no qual alguns setores reivindicam a volta do regime militar?
Isso é choro de derrotados e fracassados. Felizmente, os militares estão com as barbas de molho…

Vários “governos progressistas” têm sofrido derrotas na América Latina. Existe uma conexão entre os diversos movimentos dessa ascensão conversadora no continente?
Claro, pois os Estados Unidos não dormem em serviço. Quanto mais puderem desestabilizar os governos progressistas da América Latina, mais o farão. Porém, esses governos devem também reconhecer seus erros, como o de não cuidar da alfabetização política do povo, não valorizar o mercado interno e ficar demasiadamente na dependência do [capital] externo, além de não organizar as bases populares.

Interesses norte-americanos têm alguma influência na atual situação política do país?

Está dito acima. Os ianques farão de tudo para que o nosso continente volte a ser o quintal deles.