Intolerância -Não é uma
doutrina. Mas uma forma de interpretar e viver a doutrina. É a atitude
daquele que confere caráter absoluto ao seu ponto de vista. Sendo
assim, imediatamente surge um problema de graves conseqüências: quem
se sente portador de uma verdade absoluta não pode tolerar outra
verdade e seu destino é a intolerância. E a intolerância gera o
desprezo do outro e o desprezo, a agressividade e a agressividade, a
guerra contra o erro a ser combatido e exterminado. Irrompem guerras
religiosas, violentíssimas, com incontáveis vítimas.
Não há nenhuma religião
mais guerreira que a tradição dos filhos de Abraão: judeus, cristãos
e muçulmanos. Cada qual vive da convicção tribalista de ser povo
escolhido e portador exclusivo da revelação do Deus único e
verdadeiro. Essa fé deve ser difundida em todo o mundo, em geral numa
articulação com o poder colonialista e imperial, como historicamente
ocorreu na América Latina, África e Ásia.
O fundamentalismo, como
atitude e tendência, se encontra em setores de todas as religiões e
caminhos espirituais. Hoje em dia, o fundamentalismo judeu se centra na
construção do Estado de Israel segundo o tamanho que lhe atribui à Bíblia
hebraica. O fundamentalismo islâmico quer fazer do Alcorão a única
forma de vida, de moral, de política e de organização do Estado entre
os islâmicos e em todo o mundo. Todos os que se opõem a essa visão de
mundo são obstáculos à instauração ''da cidade de Deus'' e conseqüentemente
são infiéis e merecem ser perseguidos e eventualmente eliminados.
Verdade -O fundamentalismo não possui apenas um rosto religioso. Todos
os sistemas sejam culturais, científicos, políticos, econômicos e artísticos
que se apresentam como portadores exclusivos de verdade e de solução
única para os problemas devem ser considerados fundamentalistas.
Vivemos atualmente sob o império feroz de vários fundamentalismos.
O primeiro e mais visível
de todos é o fundamentalismo da ideologia política do neoliberalismo,
do modo de produção capitalista e de sua melhor expressão, o mercado
mundialmente integrado. Ele se apresenta como a solução única para
todos os países e para todos as carências da humanidade (todos
precisam de um necessário choque de capitalismo, diz-se
fundamentalisticamente). A lógica interna deste sistema, entretanto, é
ser acumulador de bens e serviços, por isso, criador de grandes
desigualdades (injustiças), explorador ou dispensador da força de
trabalho e predador da natureza. Ele é apenas competitivo e nada
cooperativo. Politicamente é democrático, economicamente é
ditatorial. Por isso a economia capitalista destrói continuamente a
democracia participativa. Onde se implanta, a cultura capitalista cria
uma cosmovisão materialista, individualista e sem qualquer freio ético.
Há teóricos que apresentam essa etapa como o fim da história. Para
ela não haveria alternativa. Urge inserir-se nela. Caso contrário
perde-se o ritmo da história. A condenação é a marginalidade ou a
exclusão. Eis o pensamento único e a ditadura da globalização
especialmente econômico-financeira (considero esta etapa como a idade
de ferro da globalização), hegemonizada pelas potências ocidentais.
Outro tipo de
fundamentalismo comparece no paradigma científico moderno. Ele está
assentado sobre a violência contra a natureza. Bem dizia Francis Bacon,
pai da moderna metodologia científica: há de se torturar a natureza
como o faz o inquisidor com seu inquirido, até que ela entregue todos
os seus segredos. Impõe-se esse método, fundado no corte e na
compartimentação da realidade una e diversa, como a única forma aceitável
de acesso ao real. Desmoralizam-se outras formas de conhecimento que vão
além ou ficam aquém dos caminhos da razão instrumental-analítica.
Ocorre que o projeto da tecnociência gestou o princípio da autodestruição
da vida. A máquina de morte já construída pode pôr fim à biosfera e
impossibilitar o projeto planetário humano. Na guerra bacteriológica,
basta meio quilo de toxina do botulismo para matar 1 bilhão de pessoas.
Bin Laden - Nos dias atuais
assistimos, estarrecidos, a dois tipos de fundamentalismo político. Um
representado pelo presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, e outro
por Osama Bin Laden. O presidente americano urde seus discursos no
melhor código fundamentalista: A luta é do bem (América) contra o mal
(terrorismo islâmico). Ou se é contra o terrorismo e pela América ou
se é a favor do terrorismo e contra a América. Não há matizes nem
alternativas. O ataque terrorista não foi contra os Estados Unidos mas
sim contra a humanidade, na suposição que eles são a própria
humanidade. O projeto inicial de guerra se chamava Justiça Infinita,
termo que usurpa a dimensão do Divino. Depois com menor arrogância,
mas na linguagem da utopia, chamou-se de Liberdade Duradoura. Termina
suas intervenções com ''God saves America. Há dezenas de anos que a
política exterior dos Estados Unidos maltrata as nações árabes
fazendo pacto com governantes despóticos (alguns emirados árabes nem
constituição possuem) em razão da garantia do suprimento de petróleo.
A partir de 1991, por ocasião da guerra contra o Iraque, já morreram
naquele pais cerca de 1 milhão de crianças por causa do embargo que
atinge os suprimentos medicinais e 5% da população foi morta em sistemáticos
bombardeios.
A atuação no conflito
entre Israel e os palestinos é a posições dos Estados Unidos
visivelmente unilateral, em favor dos ataques devastadores que a máquina
de guerra israelense move contra a população palestina que usa pedras
(intifada). A Arábia Saudita é ocupada por uma poderosa base militar
americana, território sagrado do islamismo onde se situam as duas
cidades santas Meca e Medina. Tal fato é para a fé islâmica tão
vergonhoso quanto um católico tolerar a Máfia no governo do Vaticano.
Coisas assim acumulam amargura, ressentimento, revolta e vontade de
vindita. É o fermento do terrorismo muçulmano cujos efeitos nefastos
todos assistimos e condenamos.
Não menos fundamentalista
é a retórica dos talibãs e de Osama Bin Laden. Este também coloca a
guerra entre o bem (islamismo) e o mal (a América). Em seu famoso
discurso após o atentado, divide o mundo entre dois campos: o campo dos
fiéis e o campo dos infiéis. ''O chefe dos infiéis internacionais, o
símbolo mundial moderno do paganismo, é a América e seus aliados.'' O
atentado terrorista significa que ''a América foi atacada por Deus em
um dos seus órgãos vitais - Graça e gratidão a Deus''. A cultura
ocidental como um todo é vista como materialista, atéia, secularista,
anti-ética e belicista. Daí a recusa em dialogar com ela e a vontade
de estrangulá-la em nome do próprio Alá.
Em nome de que Deus ambos falam? Não é seguramente em nome do Deus da
vida, de Alá, o Grande e Misericordioso, nem em nome do Pai de Nosso
Senhor Jesus Cristo, da ternura dos humildes e da opção pelos
oprimidos. Falam em nome de ídolos que produzem mortes e vivem de
sangue.
É próprio do
fundamentalismo responder terror com terror, pois se trata de conferir
vitória à única verdade e ao bem e destruir a falsa ''verdade'' e o
mal. Foi o que ambos, Bush e Bin Laden fizeram. Enquanto predominarem
tais fundamentalismos seremos condenados à intolerância, à violência
e à guerra e, no termo, à ameaça de dizimação da biosfera.
Cegos - Não se há de
sorrir nem de chorar. Mas de procurar entender. Todos os
fundamentalismos, não obstante o variado matiz, possuem as mesmas
constantes. Trata-se sempre de um sistema fechado, feito de claro e de
escuro, inimigo de toda diferenciação e cego face à lógica do arco-íris,
em que a pluralidade convive com a unidade. Cada verdade se encontra
indissoluvelmente concatenada à outra. Questionada uma, desaba todo o
edifício. Daí a intolerância e a lógica linear. Daí sua força de
atração para espíritos sedentos de orientações claras e de
contornos precisos. Para o fundamentalista militante a morte é doce,
pois transporta o mártir diretamente ao seio materno de ''Deus'',
enquanto a vida é vivida como oportunidade de cumprir a missão divina
de converter ou exterminar os infiéis. O grupo é o lar da identidade,
o porto da plena segurança e a confirmação de estar do lado certo.
Como enfrentar os fundamentalistas? Estes são praticamente inacessíveis
à argumentação racional. Nem por isso deve-se renunciar ao diálogo,
à tolerância e o uso da razão para mostrar as contradições
internas, subjacentes ao discurso e à prática fundamentalista. Por
detrás do fundamentalismo político vigora uma experiência dolorosa de
humilhação e de prolongado sofrimento. E procura-se infligir a mesma
coisa ao outro, o que é manifestamente contraditório. Trazer o
fundamentalista à realidade concreta, cheia de contradições,
claro-escuros e nuances pode introduzir nele a dúvida e a insegurança.
Estas possuem uma função terapêutica. Podem abrir uma brecha para a
luz no muro das convicções cerradas e excludentes. Dialogar até a
exaustão, negociar até o limite intransponível da razoabilidade, pode
levar o fundamentalista a reconhecer o outro, seu direito de existir e a
contribuição que poderá dar para uma convergência mínima na
diversidade.
Estamos numa encruzilhada
da história humana. Ou criar-se-ão relações multipolares de poder,
eqüitativas e inclusivas com pesados investimentos na qualidade total
da vida para que todos possam comer, morar com mínima dignidade e
apropriar-se de cultura com a qual se possam comunicar com seus
semelhantes, preservando a integridade e beleza da natureza ou iremos ao
encontro do pior, quem sabe, ao mesmo destino dos dinossauros. Armas
para isso existem e sobra demência. Faz-se urgente mais sabedoria que
poder e mais espiritualidade que acúmulo de bens matérias. Então os
povos poderão se abraçar como irmãos na mesma Casa Comum, a Terra, e
irradiaremos como filhos da alegria e não como condenados ao vale de lágrimas.
Leonardo Boff, 1938, teólogo e escritor,autor de A oração de São
Francisco: uma mensagem de paz para o mundo atual (Sextante)